08 de Julho de 2010
Aversão a risco provoca maior saída líquida de dólares do país em 18 meses
Fonte: Jornal Valor Econômico - 08/07/2010 - Caderno Finanças
O Brasil perdeu US$ 4,279 bilhões em junho e mais US$ 735 milhões em apenas dois dias de negócios em julho. O fluxo cambial negativo de junho é o pior desde dezembro de 2008, quando o mundo mergulhava na crise financeira que também explica a atual movimentação de investidores. Esse resultado, divulgado ontem pelo Banco Central, combinado à informação de que o investidor estrangeiro reduziu sua atuação na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) em seis pregões consecutivos, poderia gerar pânico. Mas isso não ocorreu. Os dados não assustam o mercado, embora sejam um termômetro revelador. Mostram que as incertezas com o cenário econômico global permanecem em pauta.

Segundo o BC, a conta financeira registrou saída líquida de US$ 3,491 bilhões em junho. Esse foi o saldo negativo mais forte nessa conta desde março de 2009, quando saíram US$ 3,901 bilhões. Nos dois primeiros dias de julho, o segmento financeiro teve déficit de US$ 403 milhões. "O que mais pesa no fluxo cambial é a aversão a risco que se observa claramente nos últimos dois meses. Essa aversão levou o resultado da conta financeira a um patamar mais negativo", explica Marianna Costa, economista-chefe da Link Investimentos para quem o comportamento do fluxo cambial pode refletir desmonte de posições de investidores internacionais no mercado de ações ou mesmo de dólar.

"A aversão está muito ligada à necessidade de caixa. Os investidores não deixaram de acreditar no Brasil. Mas é fato que o Brasil sofre mais que outros mercados porque os ativos brasileiros têm muita liquidez e os investidores já tiveram ganhos, o que propicia realização de lucros", explica.

Em meio ao debate sobre a iminência de uma nova onda de recessão global, ninguém quer acrescentar riscos a suas carteiras. E é isso que explica, segundo o sócio diretor do Banco Modal, Eduardo Cotrim, o movimento de retirada dos estrangeiros nas últimas semanas. Ele destaca, entretanto, que o movimento é insuficiente para depreciar o câmbio, mesmo com a constante atuação do Banco Central na compra de dólares no mercado à vista - o que confirma que não há uma aposta contra o mercado local.

Roberto Padovani, estrategista do WestLB Brasil, avalia que o fluxo cambial está refletindo sazonalidade e um processo de correção de preços nos mercados globais. Não indica mudança de cenário e não inspira preocupação.

"No período que vai de junho a agosto, as operações são caracterizadas por baixa liquidez no mundo. E isso implica em maior volatilidade e incerteza. O comportamento do índice S&P, da bolsa americana, nos últimos trinta anos confirma esse padrão sazonal bem definido. Esses meses são muito ruins. Mas esse fator é até menos relevante", diz Padovani que destaca a correção dos ativos.

"Essa correção decorre da frustração com o crescimento global. Há um ajuste do otimismo que marcou os negócios entre março de 2009 e março de 2010. Nesse período, os mercados foram à euforia ao constatar que a expectativa de depressão econômica não se confirmou como consequência da crise financeira. Ficou evidente que o otimismo exagerado não era sustentável", completa.

Pela conta comercial, o resultado também foi negativo, em US$ 788 milhões. André Sacconato, especialista em contas externas da Tendências Consultoria Integrada, indica uma questão operacional que também ajuda a explicar o fluxo negativo de junho: a opção dos exportadores de não trazerem para o país os dólares de suas vendas lá fora.

"Os exportadores, que tinham a prerrogativa de manter no exterior até 30% das receitas das vendas, agora podem manter lá fora até 100%. Até por essa razão, o governo deveria pensar em criar um fundo soberano lá fora que consolidasse esses dólares", comenta Sacconato, para quem o fluxo cambial financeiro de junho, também negativo, não surpreende. "Afinal, principalmente em junho, vimos tensão e nervosismo com a crise na Europa. Portanto, os dados por aqui estão sendo afetados por uma somatória de fatores conjunturais", conclui.
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